3.04.2011

O segredo de M.


47 anos de idade, 25 anos de profissão, 22 anos de casada e quase 10 anos atormentada pela incômoda ausência de amor, falta que só sente quem já teve muito muito amor.Tenho dois orgulhos se graduando na universidade, casa na praia no campo no exterior, amigos ocupados que só reaparecem no verão pra desfrutar do calor que só onde eu moro faz, a rotina dos meus dias é cruel e desonesta. Algumas coisas por muitas razões me faz falta: o cheiro do perfume que meu companheiro deixou de usar, os olhos dele confirmando seu desejo por mim, a infância dos garotos correndo pela casa ocupando meu tempo e os espaços, a época da pós inglês espanhol dança academia. De repente tudo evaporou, tudo aquilo que era bom fugiu pra dar lugar ao vazio. Minhas possibilidades de felicidade hoje resumem-se ao tempo escasso que passo na companhia dos meus filhos quando não estão com suas namoradas. Certa vez me disseram: perto dos cinquenta a gente deixa de ser mulher pra ser somente mãe. A vida é sacana mesmo.
Cansei de me redescobrir e fazer promessas. Cansei de por a culpa do fracasso no meu companheiro. Cansei de me esconder no armário. Em qualquer idade o que interessa é curtir, transar, beber e ferver os neorônios. Pra quê não comer acúçar, sal, frituras? Engordei, estou 10 quilos acima do meu peso ideal, mas pode ver meu sorriso nas fotografias, eu pareço muito feliz, eu sei que toda gorda tem a cara da felicidade, não escapei. Faço sexo duas vezes por semana e pra compensar os cinco dias sem transa meu marido me leva pra viajar. E se não dou trégua na leitura, se não te deixo respirar é por ser eufórica e querer que o mundo se convença do quanto natural e guerreira eu sou. Conheço muito de tudo, desde as cidades pequenas do meu estado aos lugares mais visitados do exterior. Essa bagagem facilita nas conversas, pareço tão interessante falando do que já vi e ainda assim não consigo ser atraente para meu marido. Mas sou para outros!!!! Foi numa dessas conversas que me faz parecer interessante que conheci um jovem através da internet. Simpatizei de tal modo que um dia sem falar com ele era pra mim um martírio. A amizade evoluiu pra romance e do romance nós conjecturamos um encontro.
Viajei, reservei hotel para os dois dias que eu passaria na cidade, simulei necessidade de estar só ao meu marido, tudo perfeito, arrisquei.
Ele não foi, o tal da internet simplesmente não foi. Escapou deixando uma lembrança qualquer, pensei em como eu me tornei vulnerável e disponível, talvez seja a idade, já tive dignidade.