6.29.2010

O Segredo de Dona G.

Nada sei do tempo
Se estou, estive ou estarei.

Só me restou ser
eterna.


Dormi, então acordei. E andei entre meus filhos tomados de tristeza, beijei a filha que me foi dada quando nem falava e hoje troca minhas fraldas, toquei cada neto com ternura, mas só abracei a neta que me viu nua. Vi cada rosto amigo com felicidade, por estar vendo-os mais uma vez. Não seria diferente de sempre. Minha casa cheia de gente triste e viva, e eu quase morta e feliz, como compreender? Meu antigo lar tão repleto de esperanças me fez vibrar, como da última vez que falei a língua dos anjos e emocionada ouvi daquele ser que só brilha, o veredicto final, - o pai está a nossa espera, ainda hoje estaremos com ele.
A morte obedece leis, aguarda o fim do dia para me abraçar em teu seio. Nesse universo ultradimensional vejo anjos, ouço baixinho pessoas orando, sinto como se eu estivesse me despedindo, e estou. Há uma sombra fresca de felicidade em mim, hesito demonstrar, mas ela faz espirais no ar.

Não alimento meu corpo há alguns dias, estou muito debilitada, por isso, cai em sono profundo. Mas é que fome eu não sinto, no leito da morte comida deixa de ser uma necessidade. Quando começamos a ouvir cânticos do céu nossa ligação com a terra já está por um triz. Conseguintemente, não urino, nem tenho fezes e minha barriga cresce, enquanto eu emagreço. Já não sinto dores, não falo, não me movo, respiro por intermédio da boca, minha pele que suportava altas temperaturas quando morava no interior e precisava arar a terra, encontra-se fragilizada e ferida por permanecer estática. Eu que sempre comi bem, saúde de ferro, lúcida, mesmo que as vezes eu repetisse alguns assuntos - relembrar o melhor da vida rejuvenesce. Confundo os tempos, não sei se estou no passado sendo vítima de um déjà vu, se estou no futuro recordando o que me aconteceu ou se esse é meu último presente, do qual estou me despedindo vagarosamente.
Adianto aos espíritas, sou evangélica e não tenho vontade alguma de mudar minhas convicções religiosas fundadas dentro do meu coração há quase 40 anos, mas testifico, agora sou só espírito no meio dos vivos me despedindo.

Meus presentes de Deus preferem que eu não saiba qual doença me maltrata. Antes do sono involuntário, quando ainda andava pela casa e haviam descoberto do que se tratava recorri a pessoas próximas de mim pedindo esclarecimentos, mas todos estavam instruídos a não dar uma palavra sequer. Logo eu, guerreira, mãe de sete filhos e inúmeros agregados, viúva de um homem difícil, seguidora fiel do evangelho, não compreendia tantos mistérios. Decifrei, não morreria enganada, não é assim que Deus quer - Que seja feita vossa vontade.

Olhei pra mim e dentro dos meus olhos passou-se minha vida, inteira. Depois dela fui incapaz de esboçar qualquer sorriso ou chorar. Foi como se minha vida não tivesse sido minha, como se tudo aquilo tivesse sido vivido por outra pessoa, que não eu. Não havia quem julgar, quem perdoar, quem apontar e criticar. Naquele momento era eu e eu. O grande momento dos que partem, cheguei a essa conclusão. Da minha vida eu estava me despedindo pra sempre, também do meu corpo. Tudo pó.
Os que morrem apagam, os que vivem reascendem. Vivemos até que o nosso último descendente morra. Então, deixamos o cosmo para sempre e nossa alma descansa em paz.

Estou com vocês.



Cinco dias após este relato Dona G. faleceu.
Foi minha estrela preferida, luz que iluminou a minha vida. Completaria 80 anos de idade hoje, 29 de junho.

6.10.2010

O segredo de G.


Desde a infância G. soube que nasceu pra ser o que ninguém quer ser. Excluído familiar, sutilmente aprendeu desde muito cedo a viver para si e fazia disso sua arma de estimação. Sempre notava segundas intenções antes mesmo de elas aparecerem, nunca acreditou em bondade genuína. Ele estava certo, quem sou eu pra desmentir quem na vida só tropeçou? E agora, com estes anos nas costas provou para todos que seu existir foi um erro cometido por algum espírito brincalhão que o observava pelo buraco da fechadura. Sabendo disso, G. caprichava nas malandragens só pra apimentar as imagens vistas do outro lado da porta, a garantia de espectador o motivava a continuar o show.

Consumiu a vida avidamente como o fogo consome o cigarro, tudo muito rápido e perigoso. Retrocedeu, violentou seu templo, e, hoje não serve de nada. Fez mal uso de si, por isso, trouxe seus dias enfumaçados pra você que gosta de ler, pra você que conhece pessoas como ele, pra você que é como ele. G. veio lhe contar como viveu. Comuniquei sobre meu público, informei que por aqui os pensantes gostam de se aventurar conhecendo vidas distantes das suas, existe respeito. G. desacreditou gargalhando, pra ele você é um animal querendo horror.

Não que G. se importe com a humanidade, comigo ou com você, mas contar sua história melhorou muito o seu dia. Se não fosse aqui seria lá fora sentado no passeio público sentindo o odor do esgoto mais próximo. Aqui tem poesia, ele disse sem acreditar no que dizia.

Olhar pra ele é como olhar um buraco negro raso de emoção, nota-se somente sua triste solidão. Não demore observando-o, ele é capaz de devorar o que de melhor existe dentro dos que o veem. Nasceu de pessoas descompromissadas, viveu numa liberdade sem limites, sempre descontente, foi educado nas ruas, obteve amor de duas ou três pessoas. As más influências, revoltas juvenis e desamor tornaram-no cego, surdo e mudo. Assim, foi trilhando um caminho de ida sem volta. Começou fumando maconha, passou pra cocaína. Conseguia emprego e saia, as amizades eram da pior espécie, afundava no crime cada vez mais, mas gostava de ser o desgosto dos pais. Foi preso e dentro da cadeia conheceu pessoas iguais a ele, perdidos no mundo, sem rumo, ex-sonhadores. Saiu de lá pior do que entrou. Usou mais drogas, vendeu, roubou, só não matou.

Permaneceu preso só que nele mesmo. G. não acredita ter jeito e lamenta por ter feito da vida alimento pra traças. Um dia aparecerá morto no noticiário e desse fim ele não escapa.
Já completamente envolvido na criminalidade não vê como recomeçar ou retroceder.
G. não soube viver. E pra viver precisa saber.