12.27.2010

O segredo de B.

Pobre, tísico, aparência penosa, cheirando a sexo e ao leite materno que mais prejudicava a mãe do que o alimentava. Vivia aos cantos do barraco sempre chorando de fome, de dor, nunca de dengo. Ouvia da mãe que a dor era natural da idade, mas nunca ouvira que a dor era conseqüência do lugar que ocupava na pirâmide das classes.

A lentidão com que aprendera a comer o pouco fez dele o mais preciso dos degustadores, já aos sete anos de idade identificava como ninguém o sabor dos temperos contidos em um pedaço de carne quando tinha a sorte de encontra-lo. Valorizava cada bolo de comida posto em sua boca, fingia esquecer o odor azedo que às vezes predominava no prato e sempre agradecia pelo que Deus havia lhe dado. Infância difícil, por vezes desejava ter sido morto como os outros filhos que a mãe raquítica não suportava alimentar por nove meses na barriga.

Demorou a dar os primeiros passos, a falar, a ler, demorou até a mãe morrer. Aprendeu a tomar conta de si, aprendeu as duras penas como viver e foi trabalhar. Tornou-se jovem trabalhador, ajudado por desconhecidos, por amigos de amigos, ajudado em troca do próprio corpo. Sua vida tomou novos rumos, portas se abriram e a vida de miséria fugiu como o sol foge da lua todos os dias. B. se fez homem, corpulento, de traços fortes, sexualidade aguçada. Num passe de mágica a vida difícil tornara-se doce, porém difícil, os homens que pagavam pelos programas lhe davam nojo e as mulheres eram poucas. Vivia para o trabalho até descobrir aos berros, atravéz de um parceiro fixo, pertencer ao grupo dos soros positivos.

Inicialmente imaginou ter sido contaminado pelo próprio informante da sentença, posteriormente cogitou a possibilidade dos mais de cinqüenta tipos que já freqüentaram seus aposentos, mas certeza ele não possuía. Outras vítimas informaram que também haviam se contaminado, alguns por vergonha negaram, outros o condenaram e até quiseram linxa-lo. B. não sabia ser o agente transmissor, herança genética da mãe (in memoriam) e nunca soube a verdade crua.

12.07.2010

O segredo de C.


Sempre fui muito tímida, tão tímida que me encolhia e invergava minha coluna quando percebia olhares enquanto caminhava nas ruas. Escondi durante muitos anos meu corpo, evitava roupas justas ou curtas, proibia-me do uso de brilho e cabelos soltos livres de amarras. Nunca quis me mostrar, sempre preferi não ser o centro das atenções e isso me mantinha sozinha.
Em meu mundo interrior eu sempre era o que eu queria ser: atrevida, comunicativa, espontânea, linda, namoradeira, inteligente, amiga de todos, rica e sem limites. Nos meus sonhos diários eu era um personagem de mim, acordava pra dormir e sonhar com meu mundo encantado.
Na adolescencia não tinha namorados, não ia ao shopping com as amigas, era o exemplo de filha. Aquela que chegava nos horários, saía pouco de casa, estudante aplicada, a amiga gorduchinha, não gostava de festas, nem tinha fogo quando via os meninos da rua de trás. Fui crescendo com a pedra da inferioridade dentro do sapato incomodando meus passos, passos estes que não foram tão grandes e promissores. Talvez a separação dos meus pais tenha bloqueado alguns dos meus passos, talvez tenha adicionado a minha vida angústias por mim desconhecidas e talves por isso eu tenha tido tanta dificuldade para me relacionar com garotos. Só aos 17 eu dei meu primeiro beijo, beijo roubado, beijo rápido, mas aos 18 eu beijei de verdade e bem demorado. Pulei tantas fases da minha vida que na idade em que dei meu primeiro beijo já queriam me fazer cantar no passarinho e eu com vergonha e sem saber o que fazer, enfiei a mão e fiz o negócio crescer. Foi quando toquei e descobri o sexo, despertou em mim o fascínio com grande nervosismo. Comecei os namoros, sempre escondidos do mundo. Até pra ser feliz a timidez me incomodava. Tornei-me safada, só não transava porque não me sentia preparada e tinha medo, muito medo. O desconhecido, a dor, a vulnerabilidade eram os motivos que sempre me faziam recuar e repensar. Preferia morrer virgem a imaginar aquilo rijo entrando dentro de mim lascando minhas fendas, me partindo inteira, me tornando mulher e tirando a menina ingênua que um dia eu fui. As vezes me interrogo e chego a conclusão de que eu pensava errado sobre tudo, sentia tudo as avessas, preferia me maltratar a deixar que os outros me maltratassem e isso foi se tornando um vício e me instruindo a cometer pequenos delitos comigo mesma. Me proibia de ser completamente feliz, de arriscar como as garotas da minha idade, errar, errar milhões de vezes e ser perdoada. E não era pra mostrar superioridade, nem pra ser motivo de orgulho. Eu era assim porque assim quis o destino, os deuses e os homens.
Aos 20 tive minha primeira transa, puts, como algo pode ser tão doloroso e depois tão prazeroso, me perguntava. Conheci o sexo e o que vem depois dele: o amor, a confiança, o respeito.
A convivência com o amor fez de mim outro ser, outra essência. Pude crescer, me conhecer e reconhecer meus misterios. Tornei-me o que eu sempre quis ser: dona de mim. O sexo tem esse poder de transformação quase brutal e inquestionável. Não compreendi ainda se mudei por consequência do sexo ou por ter encontrado meu grande amor.

Nem sempre um sorriso é verdade suficiente pra evidenciar o estado emocional de alguém.
Sempre sorri, mas no meu sorriso nunca houve verdade pura e limpa.
Eu era infeliz e ninguém sabia.

11.17.2010

O Segredo de José

José me esqueceu. José me amou, me traiu, me presenteou, brigou, relevou, depois esqueceu tudo o que comigo quase viveu. José é clássico quando incrementa o figurino com seu aro fino no dedo. José é ordinário quando enfia no rabo da outra o dedo com o anel que a esposa beija quando sai para o trabalho. José ama ardentemente a puta com quem mantém um sinistro evolvimento sexual-intelectual e sentimental frágil e fácilmente ameaçado por outra qualquer que eleve seu ego machão e disponibilize eroticidade por meios virtuais. José não é galante, desperdiça feiura, mas come qualquer louca como um lobo enfurecido e com gula.
Por isso, a procura, as casadas brigam por sua cobra nua. José galinheiro dá conta na ausência dos maridos, um dia outro José dará conta na sua ausência como marido. José naturalizado brasileiro, violentado e hipnotizado pela beleza dos relacionamentos descartáveis que rodeiam a juventude acha-se no direito de igualar-se aos mesmos vivendo perigosamente por minutos de prazer com mulheres maduras que enxergam nele únicamente a possíbilidade de foda gratuíta.
José logo será um ancião e recordará de mim como um desastre da natureza que por pouco não fodeu sua vida interia. José é um veado que cruzou meu caminho e hoje é comedor de cu trintão. José me esqueceu e também esqueceu dos seus segredos na tela do meu computador.


Por uma candidata descartada.

10.14.2010

O Segredo de P.


Consumiu a si de maneira engenhosa igualmente a um urubu no momento em que devora o último pedaço de animal envelhecido e não satisfeito sai a caça a procura do que fede, do que descartam. Predadora presa de alma retirante é o que era.
Por instinto sobreviveu acima das emoçãoes dando a cada uma valores simbólicos e inferiores ao que realmente eram, projetava negatividade no olhar de quem precisava sentir consolo, chocando aos outros com sua ilusão de verdade sobre o sentir do mundo. Extirpar as belezas da vida foi o que fez de pior achando ser o melhor, e não satisfeita revelou suas intenções de matar pra quem quisesse ouvir, pois, sua coragem de matar era contínua e se consumava todas as vezes que o desejo vinha a tona e demonstrava sua ira, seus dentes pingavam sangue de tantas más palavras proferidas.
Sua existência peculiar era conhecida, subintitulada fugitiva, falada nas famílias. Aquela cuja as honrarias e sua presença não eram bem vindas. Era a antecipação do apocalipse. Era a erva que matava os menininhos. Era a dinamite do campo verde dos vizinhos. Era a filha de um pai ausente, que pra ela não existiu. Era a dor em forma de gente e coração que de tanto tremer não resistiu e partiu sem perdoar os que a fizeram sofrer e sem o perdão dos que ela fez minguar até desaparecer.

Foi-se uma depressiva convicta e levou junto seus inimigos,
só não os amigos, nunca teve..

9.27.2010

O segredo de F.


F. é um pai recente, pai de 7 dias, pai deslumbrado e comovido com a ilusória aparencia física. Pai de primeira viagem catastrofica e dolorida. Pais como F. existem aos tantos e trancos, mas nenhum encontra-se tão entristecido após ter tido conhecimento da origem do filho.
Tanto esforço por dias de convivência, tantas dividas amontoadas, tantas promessas de passeios, tantas brincadeiras que não se despediram da vontade. São tantos nós na garganta do pai interrompido, tantos gritos e gemidos sem sensação de alívio. Sofrimento desumano esse de deixar de ser, de ter, de merecer.

No início sentiu medo, depois felicidade suprema, agora sangra e sente pena da própria inocência.
Foi enganado por uma fêmea dos lábios doce, atraído como uma presa na teia da viúva negra.
Seu filho é filho de outro pai, mas seu amor corre mais e o desespera fazendo-o duvidar da ciência e odiar quem tirou sua paz.

8.20.2010

O segredo de T.


- Se choro não é para que sintam pena. Meu desespero é por não compreender o ato impensado que cometi. Minha esposa, meus filhos, meus netos, todos saberão que o marido, pai e avô num momento de fraqueza, aniquilado pela impôtencia, acreditou que uma garota mais nova pudesse trazer de volta o apetite sexual nos seus mais de 60 anos. Por miseros segundos de prazer sujei meu nome, minha vida inteira de integridade moral e nunca mais serei visto com bons olhos pela vizinhança. Irão se afastar de mim e apontarão o dedo, isso se não optarem pelo linxamento.
Atirarão pedras, pedirão minha cabeça numa bandeija. E eu clamarei sem direito a perdão.

- Não dei fim na vida dessa garota, como dizem. É provável que ela recorde desse fato como mais um de todos, já que são muitos. No seu corpo não há marcas, ou sêmen, talvez na boca. Sei o que cometi, só não quero pagar por erros que não são meus. Por isso, minha indignação, compreende?
Vocês se apiedam agora, mas não criam meios para prevenir que garotas precisem ir para as ruas a procura de dinheiro fácil. Me criticam, até se repugnam quando olham na minha cara, mas não tratam a garota como uma garota de programa, querem que eu pague por um crime, mas não tenta averiguar com precisão o que envolve os fatos. Preferem praticar a piedade, sentir raiva de um e acalentar o outro, julgar e criticar. O que houve foi uma troca, paguei pelo serviço e tudo com o consentimento de ambos. Existe alguém aqui mais vítima do que eu?


Dias depois a queixa foi retirada.
Tudo voltou ao seu devido lugar. T. feliz em sua casa junto à família que não soube do acontecido.
A familia da garota recebeu um valor significante de T.
A polícia também recebeu sua devida importância.

Até que a punidade os reaproximem.

8.10.2010

O segredo de R.

R. foi vítima num acidente de trânsito. A esposa viúva cria os filhos órfãos de pai. O atropelador responde um processo judicial. A testemunha fez papel de boba da corte. Os aproveitadores queriam o seguro do defunto. Os amigos arcaram com todos os gastos. O código de trânsito não está devidamente preparado pra julgar casos que levam ao óbito, e assim, predomina a impunidade e pessoas morrem.


A vítima

A passarela estava ocupada por pessoas de aparência duvidosa e provavelmente eu seria assaltado, por isso, atravessei a avenida com capacidade pra quatro carros passarem ao mesmo tempo. Apesar de ter bebido um pouco no bar horas antes, eu estava sóbrio. Já passava da meia noite, o trânsito estava ameno, eu já havia transitado por aqui outras vezes, foi o destino quem quis assim. Quando eu já estava quase no centro da pista um carro surgiu em alta velocidade, pensei em voltar, mas um ônibus já estava próximo demais. No breve espaço de tempo em que vi os dois veículos em minha direção escolhi ir pra frente, talvez o carro não pudesse fazer tanto estrago em mim e eu pudesse sair com vida dali. Morri no mesmo instante em que o carro se chocou comigo, meus braços foram arrancados, minha coluna esfarelou depois de tirar do lugar meus órgãos vitais, sofri alguns arranhões e não tive tempo nem pra lembrar quem eu deixei aqui pra chorar por mim.


A viúva

Eu não queria que ele tivesse ido, eu pedi, mas ele foi sem mim. Dói tanto viver sem ele que já quis morrer pra deixar de sofrer. O homem da minha vida morreu tão jovem, tão abruptamente, tão miseravelmente. Apesar das brigas, eu o amava e ainda amo mesmo com a morte a nos separar. O que me faz querer viver todos os dias são nossos filhos, razão do meu viver. No entanto, é duro acordar e ver nos olhos de cada um o pai, ver semelhanças entre eles e o meu marido. É como conviver com ele sem o ver. Só sei que um dia os culpados pagarão o terrível mal que cometeram.

E no fundo eu me sinto um pouco culpada por não ter dito nem um último eu te amo amo ao meu nego.


A testemunha

Os garotos estavam fazendo pega, eram mais dois carros além do carro que atropelou o transeunte, vinham numa velocidade absurda, ouvia-se até o barulho do motor e dos pneus na pista reta da avenida. Coitado daquele pedestre, felizmente não sofreu tanto. Foi fatal e fulminante. O que me dói é saber que ficará impune mais essa morte. Ninguém nesse país vai pra cadeia por ter matado alguém no trânsito. Quem sofre são os parentes da vítima.


As crianças

Nosso pai está no céu cuidando de nós, minha mãe disse. Às vezes a vejo chorando, mas não pergunto por que, só abraçamos e ela nos acolhe e logo para de chorar e vai fazer alguma coisa da casa. Cuidamos dela pra ela cuidar da gente. Um dia nos encontraremos no céu e voltaremos a ser uma família como antes.


O atropelador

Não imaginei que um louco estaria atravessando aquela pista às tantas da madrugada. Não parei por medo de linchamento, não queria que tivesse terminado assim, só estava brincando com uns amigos. Quem não aumenta a velocidade em pistas largas e livres? Mas me condenar é fácil, e se errei, ele errou assim como eu. Lugar de pedestre é na passarela e de carro na estrada.


Os aproveitadores

Vamos oferecer dez mil agora e a viúva fragilizada abrirá mão dos quase quatro mil a mais que receberá se esperar um pouco e resolver sozinha. Nesse momento de dor ninguém raciocina.


Os amigos

Era o amigão de todas as horas, pra tudo. Não sei como Deus pode ser tão cruel com alguns e tão misericordioso com outros. Vamos dar um enterro digno pra ele, mas essa morte não fica em vão. Pode durar a vida inteira, o filho da puta que fez essa desgraça com meu companheiro vai pagar e caro, nem que seja com dinheiro, mas vai.


O código brasileiro de trânsito

Não é claro.


Quem é o verdadeiro culpado? Desvende esse segredo revelado.

7.13.2010

O segredo de K.

Apesar da aptidão para se comunicar, do riso frouxo e dentes simetricamente cerrados, dos cílios delineados moldando os olhos cor de mel, da postura imponente e pele semi-bronzeada digna de um semi-deus, do contorno sem exageros do seu corpo, do jeitão esportivo cheio de marra, da paixão desenfreada por festas-álcool-futebol-garotas-sexo e praia, do desleixo com o dinheiro que lhe dão. Apesar de todas as suas peças o tornarem aparentemente interessante e seus recursos financeiros desejáveis, K. é oco.


Dentro dele os sonhos já nascem mortos, os beijos possuem hálito forte, as conquistas são castelos construídos de areia, os lamentos são passageiros de um trem desenfreado a 380 km por hora, as alegrias exigem tanto que ele não recorda quanto já precisou pagar, os rancores pressionam-no a jogar tudo pro ar, os dias costumam se arrastar e arrastá-lo esfolando-o inteiro no asfalto, a coragem é aprisionada em seu pensamento, os suspiros tornam-se iguarias das datas super especiais, as paixões surgem trajadas de medo e o amor de desespero do qual não quer experimentar.


Nunca foi de se arriscar e quando esteve na beira do precipício não soube se libertar, voltou dizendo que iria mudar, mas tudo continua como sempre no lugar. Desejou por anos a irmã do melhor amigo, embora não soubesse como conquistar. Estudou em escolas de classe alta, mas precisou comprar a conclusão do ensino médio pra passar no vestibular. Teve uma mãe e um pai somente na certidão de nascimento, hoje tem uma mãe postiça que na verdade é tia. Viaja de tempos em tempos, por caminhos quase sempre novos, possui uma namorada aqui e a outra ali. No entanto, é sozinho, mas não tenha dó.


O segredo de K. é segredo pra ele também. Não sabe onde andam seus pais, quem eram e o que são, por que não quiseram cria-lo, por que deram-no sem usar o coração. Perguntas sem respostas, perguntas que pressionam seus pés no chão e endurecem o coração. Seu jeito de viver errado, suas crises existenciais, suas dores imortais são as respostas dele pra ele. Sente-se injustiçado, com toda razão, acha que não? K. é o que a vida quis que ele fosse: um sortudo. Não teve pai ou mãe, mas é regado a mil possibilidades, há um passo do primeiro degrau da escada que é só pra ele trilhar, oportunidades pra ele não hão de faltar, basta aproveitar. Porém, K. é um tolo e prefere se lamentar parado no primeiro andar olhando para o buraco aonde irá se afundar quando o mundo se fechar.



6.29.2010

O Segredo de Dona G.

Nada sei do tempo
Se estou, estive ou estarei.

Só me restou ser
eterna.


Dormi, então acordei. E andei entre meus filhos tomados de tristeza, beijei a filha que me foi dada quando nem falava e hoje troca minhas fraldas, toquei cada neto com ternura, mas só abracei a neta que me viu nua. Vi cada rosto amigo com felicidade, por estar vendo-os mais uma vez. Não seria diferente de sempre. Minha casa cheia de gente triste e viva, e eu quase morta e feliz, como compreender? Meu antigo lar tão repleto de esperanças me fez vibrar, como da última vez que falei a língua dos anjos e emocionada ouvi daquele ser que só brilha, o veredicto final, - o pai está a nossa espera, ainda hoje estaremos com ele.
A morte obedece leis, aguarda o fim do dia para me abraçar em teu seio. Nesse universo ultradimensional vejo anjos, ouço baixinho pessoas orando, sinto como se eu estivesse me despedindo, e estou. Há uma sombra fresca de felicidade em mim, hesito demonstrar, mas ela faz espirais no ar.

Não alimento meu corpo há alguns dias, estou muito debilitada, por isso, cai em sono profundo. Mas é que fome eu não sinto, no leito da morte comida deixa de ser uma necessidade. Quando começamos a ouvir cânticos do céu nossa ligação com a terra já está por um triz. Conseguintemente, não urino, nem tenho fezes e minha barriga cresce, enquanto eu emagreço. Já não sinto dores, não falo, não me movo, respiro por intermédio da boca, minha pele que suportava altas temperaturas quando morava no interior e precisava arar a terra, encontra-se fragilizada e ferida por permanecer estática. Eu que sempre comi bem, saúde de ferro, lúcida, mesmo que as vezes eu repetisse alguns assuntos - relembrar o melhor da vida rejuvenesce. Confundo os tempos, não sei se estou no passado sendo vítima de um déjà vu, se estou no futuro recordando o que me aconteceu ou se esse é meu último presente, do qual estou me despedindo vagarosamente.
Adianto aos espíritas, sou evangélica e não tenho vontade alguma de mudar minhas convicções religiosas fundadas dentro do meu coração há quase 40 anos, mas testifico, agora sou só espírito no meio dos vivos me despedindo.

Meus presentes de Deus preferem que eu não saiba qual doença me maltrata. Antes do sono involuntário, quando ainda andava pela casa e haviam descoberto do que se tratava recorri a pessoas próximas de mim pedindo esclarecimentos, mas todos estavam instruídos a não dar uma palavra sequer. Logo eu, guerreira, mãe de sete filhos e inúmeros agregados, viúva de um homem difícil, seguidora fiel do evangelho, não compreendia tantos mistérios. Decifrei, não morreria enganada, não é assim que Deus quer - Que seja feita vossa vontade.

Olhei pra mim e dentro dos meus olhos passou-se minha vida, inteira. Depois dela fui incapaz de esboçar qualquer sorriso ou chorar. Foi como se minha vida não tivesse sido minha, como se tudo aquilo tivesse sido vivido por outra pessoa, que não eu. Não havia quem julgar, quem perdoar, quem apontar e criticar. Naquele momento era eu e eu. O grande momento dos que partem, cheguei a essa conclusão. Da minha vida eu estava me despedindo pra sempre, também do meu corpo. Tudo pó.
Os que morrem apagam, os que vivem reascendem. Vivemos até que o nosso último descendente morra. Então, deixamos o cosmo para sempre e nossa alma descansa em paz.

Estou com vocês.



Cinco dias após este relato Dona G. faleceu.
Foi minha estrela preferida, luz que iluminou a minha vida. Completaria 80 anos de idade hoje, 29 de junho.

6.10.2010

O segredo de G.


Desde a infância G. soube que nasceu pra ser o que ninguém quer ser. Excluído familiar, sutilmente aprendeu desde muito cedo a viver para si e fazia disso sua arma de estimação. Sempre notava segundas intenções antes mesmo de elas aparecerem, nunca acreditou em bondade genuína. Ele estava certo, quem sou eu pra desmentir quem na vida só tropeçou? E agora, com estes anos nas costas provou para todos que seu existir foi um erro cometido por algum espírito brincalhão que o observava pelo buraco da fechadura. Sabendo disso, G. caprichava nas malandragens só pra apimentar as imagens vistas do outro lado da porta, a garantia de espectador o motivava a continuar o show.

Consumiu a vida avidamente como o fogo consome o cigarro, tudo muito rápido e perigoso. Retrocedeu, violentou seu templo, e, hoje não serve de nada. Fez mal uso de si, por isso, trouxe seus dias enfumaçados pra você que gosta de ler, pra você que conhece pessoas como ele, pra você que é como ele. G. veio lhe contar como viveu. Comuniquei sobre meu público, informei que por aqui os pensantes gostam de se aventurar conhecendo vidas distantes das suas, existe respeito. G. desacreditou gargalhando, pra ele você é um animal querendo horror.

Não que G. se importe com a humanidade, comigo ou com você, mas contar sua história melhorou muito o seu dia. Se não fosse aqui seria lá fora sentado no passeio público sentindo o odor do esgoto mais próximo. Aqui tem poesia, ele disse sem acreditar no que dizia.

Olhar pra ele é como olhar um buraco negro raso de emoção, nota-se somente sua triste solidão. Não demore observando-o, ele é capaz de devorar o que de melhor existe dentro dos que o veem. Nasceu de pessoas descompromissadas, viveu numa liberdade sem limites, sempre descontente, foi educado nas ruas, obteve amor de duas ou três pessoas. As más influências, revoltas juvenis e desamor tornaram-no cego, surdo e mudo. Assim, foi trilhando um caminho de ida sem volta. Começou fumando maconha, passou pra cocaína. Conseguia emprego e saia, as amizades eram da pior espécie, afundava no crime cada vez mais, mas gostava de ser o desgosto dos pais. Foi preso e dentro da cadeia conheceu pessoas iguais a ele, perdidos no mundo, sem rumo, ex-sonhadores. Saiu de lá pior do que entrou. Usou mais drogas, vendeu, roubou, só não matou.

Permaneceu preso só que nele mesmo. G. não acredita ter jeito e lamenta por ter feito da vida alimento pra traças. Um dia aparecerá morto no noticiário e desse fim ele não escapa.
Já completamente envolvido na criminalidade não vê como recomeçar ou retroceder.
G. não soube viver. E pra viver precisa saber.

5.26.2010

O segredo de O.


Imagine um homem que entre filhos e netos possui mais de trinta descendentes. Imagine um ser querido por todos, desde o gari ao pastor da igreja. Imagine uma aparência calejada e pele completamente enrugada. Imagine uma rotina: casa-Deus-supermercado. Imagine uma casa varandada, repleta de plantas que são cuidadas todos os dias, paredes levantadas com trabalho árduo, chão surrado por variados passos. Imagine um quarto decorado com livros cobertos de traças, cheirando a antiguidades, carregado de imagens e gavetas pesadas de remédios controlados, sem os quais um ancião não poderia sobreviver. Imagine uma vida inteira ao lado de uma mulher com quem se viveu tantos anos que perdeu a conta. Imagine que essa mesma mulher não ama, nem é amada, mas é essencial na vida do homem que divide os dias com ela. Imagine quantos momentos bonitos esse homem viveu, não esqueça de imaginar também as muitas vezes que foi pra cama de barriga vazia para que a dos filhos estivessem cheias. Imagine com alma..

Esse homem sou eu, e, se minha vida não comove vocês, homens da lei. Olhem nos olhos daqueles pequenos que encontram-se logo ali, na varanda. Observem seus olhos assustados por verem estranhos tentando levar seu avô algemado. A dor que sinto agora não será maior que a tristeza deles enquanto eu estiver saindo. Não penso nos vizinhos, na mulher que viveu comigo tantos anos e nunca soube do meu passado, muito menos nos meus filhos. Penso nos meu netos, nos meus pequeninos. Se matei foi por terem matado primeiro a mim. A raiva em minha vida foi como um demônio evocado que não controlei. É na adolescência que começamos a guardar segredos dos quais vamos nos arrepender para o resto da vida, mas desse segredo eu nunca hei de me arrepender um dia. Estou sendo levado por ter tirado do mundo o estuprador da minha Cecília, minha pequena irmã indefesa, minha vida, motivo de vergonha pra família e a justiça me achou ainda em vida. Não teriam achado o estuprador se ele estivesse vivo hoje em dia.

4.19.2010

O segredo de J.


Nota da autora:
Por quatro ou nove vezes desisti de compartilhar o segredo de J.
Porque eu tinha certeza que minha opinião iria sobrepor à verdade do segredo,
porque mesmo tentando ser fiel a realidade
minhas impressões e amizade por J. tornaria o texto mais meu do que dela.

Mesmo com tantos empecilhos criados por mim, escrevi, fiz de mim também um personagem.


J. é do tipo camaleão, se adapta fácil a qualquer lugar-situação-indivíduo. Essa habilidade dependendo do ponto de vista pode ser interpretada positivamente, uma qualidade, é justamente isso o que J. acha. Considera sua imprevisibilidade a melhor de todas suas qualidades, nisso discordamos. Suas infinitas personalidades deixam dúvidas, embaraçam as opiniões que os outros possuem sobre ela e inclusive a opinião dela sobre ela mesma.

Sempre foi expansiva, comunicativa, divertida, pra frente, mentirosa, excessiva, malandra, provocante, apaixonante, faz parte dessa turma que faz teatro e pinta a cara de palhaço.
Pessoas perigosas são as mais prazerosas de amar. Com elas descobrimos milhões de achados, por elas cometemos crimes e sem elas a gente mofa e fica embolorado. Foi uma graça infinita e ao mesmo tempo demoníaca ter conhecido J. durante seu processo.

J. me ensinou muito, principalmente a não ter medo de uma mulher quando ela se assume homossexual. Exorcizou de mim a idéia fixa de que manter amizade com lésbicas poderia incumbir em mim à homossexualidade.
Mas nem tudo são flores, nem tudo o que dizemos é o que fazemos...

J. de filha pródiga passará a crucificada. Ela sabe das dores que causará aos pais, familiares. Por enquanto, J. ainda leva em consideração o que os outros pensam, o preconceito que virá sofrer ainda aterroriza seus dias, teme não suportar as indelicadezas e ultrajes. Aos onze anos teve seu primeiro beijo convencional, foi com um menino da mesma idade, seu vizinho. Ela conta que além do desconforto do primeiro beijo, da falta de jeito, não sentiu nada que fizesse o corpo vibrar. Até então, não havia indícios de que seu corpo só reagiria ao toque feminino. Não fazia idéia de que poderia ser melhor se fizesse o mesmo com uma menina. Até os treze anos só beijou meninos, algumas vezes achou que gostava daquilo, noutras tinha certeza que não. J. levou bastante tempo até descobrir suas preferências, teve medo de si.

Mostra-se forte, bem aceita e independente para os amigos, mas é tudo encenação. Levou pra vida o que deveria ficar nos palcos, no teatro. Antes dos catorze anos beijou A., menina, se apaixonou, namorou escondido, terminou, ficou na dúvida.
Conheceu I., menino, se encantou, namorou, transou, teve certeza de que não curtia aquilo, mas se intitulou bissexual.
Conheceu sua atual namorada, está apaixonada, cortou cabelo, trocou guarda-roupa, enfiou tênis nos pés, os pais fingem não saber nada, os parentes perguntam pelo namorado, ela fotografa um amigo gay e apresenta aos parentes como sendo o namorado, a namorada freqüenta sua casa, dormem no mesmo quarto, vivem juntas como se fossem melhores amigas inseparáveis. Pra ela a homossexualidade é uma maravilhosa desgraça e de tão leve chega a quebrar os ossos do corpo inteiro. É um fardo pesado, insustentável, livremente disfarçado.

3.26.2010

O segredo de A.

Foi por duas décadas o que não gostaria de ser: falou com o invisível, viveu escondido dentro de um quarto, agrediu os que o amavam para se defender, sorriu por nada e pra ninguém, falou coisas sem nexo, tornou-se o melhor amigo de uma mosca, não se apresentou à sexualidade, comeu e bebeu do que escolhiam, cresceu no corpo, minguou no intelecto e manteve-se casto na alma, afugentou a cura por ignorância, desmereceu sua mãe, suas irmãs o escondia, quis viver no outro plano, cobria os ouvidos para não participar da realidade, se isolava por achar que seu mundo interno já lhe bastava, frequentou aulas que não adiantaram em nada, entrou na clínica numa quarta-feira e saiu na sexta, fez uso da metade dos tranquilizantes e antidepressivos existentes no mundo, tentou morrer e não conseguiu, nunca conheceu o amor, suas festas eram em família e quieto num canto qualquer, seu choro sempre foi inaudível e por ele nunca foi entendido, não se via no espelho, reconhecia seus sabores preferidos, mas nunca escolheu o que iria vestir, gostava da TV mesmo sem entender o que ela transmitia, teve dinheiro e nunca gastou, conheceu pessoas iguais-melhores, não conheceu piores, pensava em nada o dia inteiro, palavras repetidas eram as que saiam de sua boca, visitou psiquiatras, psicólogos, analistas, pastores, bispos, nunca um pai-de-santo ou uma cartomante, fugiu da igreja, teve alucinações, via bichos, era perseguido, sem fé por não saber o que é e se soubesse curado seria, talvez, usar camisa de força doeu mais na mãe do que nele, dia e noite dopado permitiu que tivesse sonhos, nestes dias viveu bem melhor, nunca feliz.
A. sofre distúrbios psicológicos desde a infância, distúrbios estes muitas vezes confundidos com possessão demoníaca. Se Deus ou os demônios ouvissem-no ele forçaria a língua, puxaria do fundo das suas cordas vocais o som e imploraria que ambos permitissem sua cura. Enquanto os céus não reagem um anjo vive entre nós sem se acostumar com nossos hábitos, sem aprender nossas mazelas, sem poluir seu coração e engana-se quem acredita que sua vida é em vão.

Deus nos testa de um jeito doloroso, mas recompensa.

3.11.2010